25/01/2009



















Sociedade do Desperdício
Uma tentação imediata do nosso tempo é o desperdício. Não é só resultado duma invenção constante da oferta que leva ao apetite do consumo, como é, sobretudo, uma forma de aristocracia técnica. O tecnocrata, novo aristocrata da inteligência artificial, dos números e dos computadores, propõe uma sociedade de dissipação. Propõe-na na medida em que favorece os métodos de maior rendimento e a rapina dos recursos naturais. As hormonas que fazem crescer uma vitela em três meses, as árvores que dão fruto três vezes por ano, tudo obriga a natureza a render mais. Para quê? Para que os alimentos se amontoem nas lixeiras e os desperdícios de cozinha ou de vestuário sirvam afinal para descrever o bluff da produtividade.
Agustina Bessa-Luís, in 'Dicionário Imperfeito'

22/12/2008

PORTAS

Se você encontrar uma porta à sua frente, você pode abri-la, ou não.Se você abrir a porta, você pode , ou não , entrar em uma nova sala.Para entrar, você vai ter que vencer a dúvida, o titubeio ou o medo.Se você venceu, você dá um grande passo:
nesta sala, vive-se.Mas, tem um preço: são inúmeras outras portas que você descobre.
O grande segredo é saber quando e qual porta deve ser aberta.
A vida não é rigorosa: ela propicia erros e acertos.
Os erros podem ser transformados em acertos quando com eles se aprende.
Não existe a segurança do acerto eterno.
A vida é humildade: Se a vida já comprovou o que é ruim, para que repeti-lo?
A humildade dá a sabedoria de aprender e crescer também com os erros alheios.
A vida é generosa: A cada sala em que se vive, descobrem-se outras tantas portas.A vida enriquece a quem se arrisca a abrir novas portas.Ela privilegia quem descobre seus segredos e generosidade oferece afortunadas portas.Mas a vida pose ser também dura e severa:
Não ultrapassando a porta,
você terá sempre essa mesma porta pela frente.
É a repetição perante a criação.
É a monotonia monocromática perante o arco-íris.
É a estagnação da vida.
Para a vida, as portas não são obstáculos,
mas diferentes passagens...

Içami Tiba

12/12/2008



Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo."
Clarice Lispector